A Distorção dos Métodos Ágeis

Já percebeu que empresas de todas as áreas têm adotado Métodos Ágeis?

Lean, Kanban, Scrum são exemplos de palavras desconhecidas até a década passada que vêm inundando o vocabulário do modismo atual.

Gráfico de Nuvem com Léxico e Terminologias dos Métodos Ágeis

Os motivos para isso são óbvios para qualquer conhecedor da metodologia, que visa introduzir padrões de processo para resolver criativamente problemas recorrentes, retirando-os com o tempo do cotidiano da equipe.

Uma promessa tentadora, não é? Por isso os métodos ágeis têm se espalhado para tantas e tantas áreas.

A questão é que essa disseminação evidencia também alguns pontos não tão positivos, em sua maioria oriundos da má aplicação dos métodos ágeis ou de fraquezas das equipes.

 

Métodos Ágeis São Irrestritos?

Preocupados com a produtividade e eficiência de suas equipes, coordenadores, gestores e diretores vêm procurando meios de aumentar a eficiência de suas equipes, produzindo mais em menos tempo.

Justamente uma das possíveis consequências da aplicação dos Métodos Ágeis.

Levados pela onda de fama da metodologia, tais stakeholders a introduzem no dia a dia de suas equipes, apesar de muitas ainda não estarem capacitadas para fazê-lo, tornando a implementação mais prejudicial e custosa do que benéfica, sem trazer reais mudanças e ganhos para a produtividade dos funcionários.

Isso ocorre porque a implementação de metodologias ágeis implica, entre outros pontos, em uma revisão no relacionamento com o cliente, maior especificação das tarefas cotidianaspossível (ou provável) retrabalho e revisão do modelo de cronograma utilizado.

Tais etapas figuram na lista das mais evitadas por boa parte das empresas, que, mesmo que neguem, ainda seguem a linha de raciocínio “O Cliente tem sempre razão” e a arrogância de “meu modelo de trabalho sempre funcionou e não é agora que é preciso mudá-lo”.

Nesses casos, os métodos ágeis provavelmente exigirão um esforço muito maior do que a recompensa, dado que não será aplicado de maneira adequada.

Além desses, há campos que, por essência, também não comportam um modelo ágil, por pura incompatibilidade na proposta de trabalho.

Nas demais áreas, é possível implementar os métodos ágeis, mas ele só deve ser considerado se houver a presença de um profissional qualificado ou a possibilidade de treinamento prévio.

Segundo especialistas, uma boa forma de ponderar a necessidade ou não de Métodos Ágeis no negócio é o nível de adaptação da equipe com a introdução do método. É normal e saudável haver mudanças, mas se a mudança impuser esforços demais, significa que provavelmente há alternativas mais adequadas.

 

Métodos Ágeis Guela Abaixo

A questão surge quando essa ponderação não é feita e alguma nova metodologia é imposta mesmo que não se adapte às necessidades da empresa ou da equipe.

E isso vem acontecendo muito nos últimos anos.

Matthew Ford Kern, autor do artigo O Agile Está Morto, cita justamente essa obsessão em aderir aos Métodos Ágeis como uma das causas para seu fim.

Para ele, a metodologia foi super-marketizada, dando destaque aos resultados positivos, mas ignorando as condições para que eles aconteçam, assim como sua implementação em áreas incompatíveis com o método, como em equipes de gestão, por exemplo.

Ele é corroborado por diversos outros nomes relevantes da área, inclusive alguns dos fundadores dos métodos.

Kern sugere, contudo, que, apesar do fim inevitável da metodologia ágil, ela deixará ensinamentos e evoluções, tendência que ilustra pelo Hype Cycle, que indica o DevOps como substituto:

Gráfico de Hype Cycle
Hype Cycle – Representação gráfica das fases de maturidade, adoção e aplicação social de tecnologias específicas

 

As sucessão de tecnologias e sua contribuição social segundo o Hype Cycle
As sucessão de tecnologias e sua contribuição social segundo o Hype Cycle

 

Resumindo, a teoria que Kern propõe é que o uso inadequado da metodologia fará com que os Métodos Ágeis desapareçam, dando lugar a uma versão mais nova e melhor adaptada aos problemas atuais do mercado.

Por outro lado, o uso “adaptado” a outras áreas seguirá ocorrendo, mas para os acadêmicos e discípulos do método, ele não corresponde ao formato correto da Metodologia Ágil, que estará portanto, “morta”.

 

A Febre dos Métodos Ágeis

Dito tudo isso, fica a pergunta: se os especialistas no assunto dizem que o amplo uso é inadequado e prejudicial à metodologia, por que tanta obsessão por agilidade?

Uma das apostas relaciona o fenômeno com a própria mudança na realidade humana.

O avanço tecnológico nos proporcionou o contato com uma quantidade de informações nunca antes visto. Mas essa imersão em dados e informações nos levou para um recuo no desenvolvimento sensorial, perceptivo e, por consequência, psicológico.

“O nosso mundo sensorial é muito mais pobre se comparado ao de nossos ancestrais.
(…)
Estamos terrivelmente sem foco.

Temos muito mais opções do que nunca, mas quão boas são essas opções, se perdemos a capacidade de prestar atenção (nelas) realmente?”

Sapiens, de Yuval Noah Harari

O trecho do excelentíssimo livro de Harari ilustra com exatidão esse fator. A mudança na nossa realidade foi brusca, aprendemos a lidar com Big Data, Real Time Data, Softwares Open Source, Realidades Virtuais e até Relacionamentos Virtuais do dia para a noite.

As relações humanas foram ressignificadas, o Homem ganhou uma maior intimidade com as máquinas e seu pilar de pensamento racionalizado e metálico e viu suas relações humanas sendo infantilizadas.

Discussões de famílias passaram a ser feitas pelo WhatsApp, as conversas ficaram polarizadas e o debate sadio e construtivo tem se tornado cada vez mais raro e com argumentos cada vez mais rasos.

Isso porque as bases psíquicas e emocionais do Homem não mudam do dia para a noite.

Essa dessincronização acarreta uma série de problemas no desenvolver das novas tasks do universo ágil.

Podemos correr atrás da nova leva de tecnologia e do novo alcance que a imensidão de informações nos possibilita, mas de nada adianta se não conseguirmos desenvolver nossa psique de forma com que nossas emoções possam acompanhar o passo.

Foi isso que chamou a atenção das empresas para as Metodologias Ágeis, além de sua promessa de aumento de produção e de Retorno de Investimento, elas também obrigam as equipes justamente a trabalharem em equipe.

Representação Visual de uma Sprint
O trabalho conjunto da equipe está presente em todas as etapas de uma Sprint padrão.

Não há metodologia ágil sem reuniões diárias, sem reuniões a cada início e conclusão de projeto, sem a colaboração de todos no planejamento e desenvolvimento dos projetos, sem a opinião de todos na retrospectiva, sem que haja aprendizado e amadurecimento a cada projeto finalizado.

A metodologia ágil estimula a comunicação entre os indivíduos das equipes e entre as equipes envolvidas em cada grande projeto da empresa. É preciso que as áreas interajam e colaborem umas com as outras.

A tomada de decisão é horizontalizada, não há mais uma palavra final e uma opinião soberana do líder.

Metodologias Ágeis só funcionam em equipes integradas.

E é aí que as promessas de aumento de produtividade e eficácia são alcançadas, no momento em que o desenvolvimento técnico está aliado ao desenvolvimento emocional de cada empresa.

O Homem é um ser carnal, primitivo e em constante evolução, por mais que possamos simular e replicar nossa complexa rede neural por encaixes de titânio e cabos plásticos, criando vidas robotizadas, é impossível eliminar as vísceras e o sangue dessa equação.

Pelo menos até agora.

 

Interessado em Aprender?

Apesar de todos os argumentos supracitados, os Métodos Ágeis podem ser muito úteis em diversas situações.

Para quem quiser se informar, aprender e se certificar na metodologia, sugirimos os episódios do Hipsters.Tech sobre a Metodologia.

Além de um bate papo com profissionais experientes nos métodos, há uma série de links para mergulhar no assunto e saber tudo que é preciso.

 

Agilidade     ——    Scrum     ——   Kanban     ——   Agile Para Além da Tecnologia

 

Fontes

As imagens dessa série possuem links para suas respectivas fontes.

Entre as fontes usadas para a elaboração do texto estão:

InfoQ Brasil – A Praga das Febres Ágeis [Acesso em 18/10/2018]

InfoQ Brasil – O Ágil Está Morto – Novamente [Acesso em 19/10/2018]

Tá Safo! – Verdades Inconvenientes Sobre Agilidade [Acesso em 19/20/2018]

Baguete – Os Métodos Ágeis Me Desafiam [Acesso em 22/10/2018]

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