A Programação de Ada Lovelace

Com a nova release da pesquisa que estuda as diferenças salariais entre gêneros divulgada pelo IBGE no último dia 10, vemos que a sobrecarga sofrida por parte da população segue sustentando as vantagens que agraciam outros grupos – injustamente.

A pesquisa indicou que mesmo estando melhor qualificadas, o desequilíbrio na divisão de tarefas do dia a dia na vida pessoal entre os gêneros prejudica o desenvolvimento profissional das mulheres, que ganham cerca de 76% do salário de um colega do sexo masculino que ocupe o mesmo cargo.

Gráfico da diferença salarial entre gêneros entre 2012 e 2016 - Fonte IBGE 

Quando entramos na área de tecnologia, a diferença assusta.

Primeiro, os dados: um estudo feito por dois economistas da Universidade de Minho em Portugal aponta que a formação em cursos STEM (sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) traz um bônus salarial de 70% frente à graduação secundarista, enquanto que as demais licenciaturas geram um bônus de 55%.

Segundo dados da ONU Mulheres, 74% das mulheres têm interesse em cursos STEM, mas apenas 18% dos títulos de graduação em Ciência da Computação foram concedidos a mulheres, simbolizando a distância da parcela feminina da população dos cargos melhor remunerados atualmente.

Para ir na contramão desse cenário, foi instituído o Ada Lovelace Day, que celebra as conquistas das mulheres nos campos de Ciências e Tecnologia e visa estimular a ingressão feminina em cursos e estudos nas áreas STEM.

 

Mas quem foi Ada Lovelace?

Ela é conhecida como A Condessa que inventou o algoritmo, há uma linguagem de programação estruturada nomeada em sua homenagem, um dia celebrado em seu nome e até um doodle comemorativo foi feito pelo Google em seu aniversário de 197 anos.

Doodle de 2012 em Homenagem a Ada Lovelace
Doodle de 2012 em Homenagem a Ada Lovelace

 

Ada Lovelace é filha de Lord Byron, um dos maiores nomes da literatura inglesa e mundial.

Uma curiosidade sobre seu pai:

Lord Byron esteve envolvido na criação do livro Frankenstein ou o Moderno Prometeu, considerado o primeiro livro de ficção científica da história.

A obra foi escrita por Mary Shelley depois de uma viagem com amigos, entre eles Lord Byron. O clima estava hostil e eles ficaram dias presos dentro de casa, e, para se distraírem, decidiram começar a contar histórias de terror uns aos outros.

Então, eles se desafiaram a criar cada um uma nova história assustadora para divertir os companheiros.

Desse desafio veio a inspiração tanto para a criação de Frankenstein quanto para a concepção do Vampiro como conhecemos hoje, que depois viria a inspirar também a história de Drácula.

 

Desde cedo, Ada Lovelace mostrava encantamento pelo talento do pai e quando jovem mantinha uma conduta bastante compatível com o estereótipo do artista: gostava da vida boêmia, de jogos, romances e festas.

Para evitar que a menina seguisse o caminho da boemia artística de seu pai, sua mãe, uma estudiosa matemática chamada Anne Isabella Milbanke, esforçou-se para que a filha tivesse uma educação acadêmica e científica, numa época em que moças não tinham permissão para a formação em universidades.

Ela conseguiu com que um dos tutores da menina fosse o primeiro professor de Matemática da Universidade de Londres, que, curiosamente, foi a primeira universidade a aceitar mulheres em seu corpo discente, 26 anos após a morte de Lovelace.

Aparentemente, o antagonismo entre pai e filha desejado pela mãe aconteceu, pelo menos profissionalmente.

Enquanto Lord Byron era um apoior do ludismo, doutrina contrária ao progresso da automação, informatização e novas tecnologias, Ada Lovelace inventou o conceito de algoritmo, base de toda a programação moderna.

“A religião para mim é ciência e a ciência é religião”

Apesar da discrepância de opiniões quanto à tecnologia, quando o assunto era literatura, Ada e seu pai eram bastante semelhantes. Aos 12 anos, a menina escreveu um livro, Flyologycujo enredo era baseado em suas ideias para construir uma máquina voadora.

Outra mentora de Lovelace teve influência direta no seu futuro, a astrônoma Mary Sommerville, primeira mulher a ingressar na Sociedade Real de Astronomia e quem a conectou com Charles Babbage.

 

Dedicação e Obstinação: As Armas de Ada Lovelace

Charles Babbage era membro da Royal Society of London, instituição que já foi presidida por Isaac Newton, e recebeu uma bolsa do governo para projetar uma calculadora com capacidade para calcular até a vigésima casa decimal e, entre seus projetos, estava o Analytic Machine, máquina datada de 1843, criada para executar comandos e cálculos complexos.

Ao saber do projeto, Ada Lovelace encontrou sua paixão e tentou repetidamente se tornar aluna de Babbage, sem sucesso.

Quando ele publicou um artigo em uma revista suíça, ela prontamente o traduziu e fez algumas notas de rodapé, impressionando seu autor.

Ela e Babbage, então, se aproximaram e passaram a trabalhar juntos, trocando ideias sobre os projetos do cientista.

O trabalho de Lovelace, a quem Babbage chamava de “feiticeira dos números“, era basicamente traduzir seus trabalhos.

Ilustração de Robert Ryan de Ada Lovelace e Charles Babbage e sua Máquina Analítica
Ilustração de Robert Ryan de Ada Lovelace e Charles Babbage e sua Máquina Analítica

 

Inovação e Legado

Ao fazer a tradução do trabalho sobre a Máquina Analítica, Lovelace percebeu que a máquina era capaz de desenvolver mais do que cálculos, possibilidades não descritas por seu inventor, e acrescentou suas próprias notas à tradução.

Entre elas, estavam códigos relacionando números, letras e símbolos; instruções para a máquina repetir comandos em looping e um algoritmo para que o computador fosse capaz de calcular os números complexos do Princípio de Bernoulli – códigos, algoritmos e o conceito de looping: as bases da programação moderna.

O algoritmo foi um conceito inovador na época e continua tendo destaque devido ao avanço que proporcionou para a ciência da programação usada até os dias atuais.

Além do algoritmo, as notas extras redigidas por Lovelace continham um sistema de cartões perfurados que fundamentaram o conceito de armazenamento de dados e viria a ser a base para a criação dos primeiros computadores da história.

Esse sistema foi inspirado no Tear de Jacquard, outro invento revolucionário do século XIX, que automatizou o modelo de produção da indústria têxtil e foi justamente a invenção que inspirou o Movimento Ludista, apoiado por Lord Byron.

 

Reconhecimento

Assim como tantas outras mulheres na história, seu brilho foi ofuscado por anos por figuras masculinas, barreiras invisíveis e injustiças sociais.

Apesar de sua irreverência e pioneirismo, Ada Lovelace só ganhou o reconhecimento da área quando seu trabalho foi mencionado por Alan Turing, o pai da computação moderna e protagonista da 4ª Revolução Industrial, reconhecendo sua influência para o desenvolvimento tecnológico quase um século depois de seus feitos.

Hoje, Lovelace é símbolo de uma luta milenar e contar a sua história, assim como as de muitas outras mulheres, ainda se faz necessário para inspirar a busca por uma sociedade justa e igualitária.

 

Fontes

As imagens possuem links para suas respectivas fontes.

Entre as fontes usadas para a elaboração do texto estão:

ONU Mulheres

El País

Revista Galileu

Eco Debate

Canal Tech

PET SI – USP

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