Filosofia Grega – A Ascensão na Grécia Antiga

Como um dos povos mais religiosos da história abriram caminho para o desenvolvimento científico mundial?

 

Historicamente, quando confrontado por situações que não compreendia, o Homem recorria à religião para encontrar o alento necessário para enfrentar os fenômenos naturais e as emoções que a vida o impunha.

Assim também era na Grécia Antiga, onde a religião moldava as bases culturais e guiava os cidadãos gregos, permitindo que todos os acontecimentos terrestres fossem apontados como a simples Vontade dos Deuses e não pedisse maiores explicações.

Os preceitos religiosos estavam tão intrínsecos à cultura grega que é possível perceber sua influência em diversas características sociais da população, principalmente na linguagem e expressões artísticas.

Isso porque a simbologia era de extrema importância na mitologia grega, assim como os rituais, que costumavam contar com diversas homenagens aos Deuses, principalmente através de poesias musicadas que relatavam o mundo os Deuses e os relatos mitológicos.

Representação artística de um ritual
Os rituais eram frequentemente representados na arte grega

 

Assim como debatido no post sobre o Dualismo que existe entre Religião e Ciência, na Grécia Antiga também houve o confronto entre as duas áreas do conhecimento humano.

Mas como um povo tão moldado pela religião foi também pioneiro no desenvolvimento científico?
 

Mitologia Grega x Novas Culturas

As religiões gregas eram predominantemente politeístas e baseadas em mitologia. A história dos Deuses era passada de geração em geração, mas não contava com um livro Sagrado, dependia da ação de seus próprios fieis e pregadores, que usavam e abusavam de misticismo e simbologia para explicar fatos que não compreendiam completamente.

Por isso, discute-se até hoje a veracidade do conteúdo das narrativas mitológicas e suas expressões artísticas, questionando se eram relatos verdadeiros ou mera simbologia e representação.

Esse questionamento também começou a surgir em alguns cidadãos gregos conforme o contato com culturas estrangeiras avançava.
 

Grécia Antiga, Uma Lucrativa Rota Comercial

A Grécia Antiga ficava no sul da Península Balcânica, banhada pelo Mar Egeu, tendo assim livre acesso a terras da Europa, Ásia e África, o que a tornava um importante e influente ponto comercial.

Mapa da Grécia Antiga

Isso tornou a região destino de mercadores de diversos países, espalhando pelas cidades-estados gregas sementes da diversidade cultural, aproximando dos gregos diferentes idiomas, pensamentos, opiniões e inclusive religiões.

A Grécia era uma terra fértil culturalmente e, sem grandes obstáculos, deixou que tais sementes brotassem e dessem vida a novos pensamentos perante a população local.

Aos poucos, isso despertou em alguns cidadãos gregos uma certa inquietude perante as explicações para os fatos mundanos. Como citado, até então, fenômenos naturais, organização social, relações pessoais e sentimentos eram explicados como mera consequência da Vontade dos Deuses, argumento esse que era incontestável e não requeria maiores explicações.

Com a chegada de novos povos e, consequentemente, novas culturas, alguns cidadãos gregos começaram a não se contentar mais com tais argumentos e iniciaram uma busca por explicações mais sólidas, semeando o solo para o nascimento de uma geração menos conformista e mais questionadora na região.

Assim, alguns membros da elite grega começaram a dedicar seu tempo à observação do mundo ao seu redor na intenção de obter respostas mais convincentes e conclusivas que mera Vontade divina.
 

Avanços Tecnológicos

Ao mesmo tempo, a sociedade grega passava a se desenvolver e conquistar feitos determinantes para seu futuro, um dos mais importantes foi a expansão naval.

Os gregos foram pioneiros em viagens marítimas e chegaram em terras nunca antes desbravadas, o que causou as primeiras fissuras na crença religiosa da Grécia Antiga, isso porque muitas dessas terras eram tidas como regiões sagradas pelos gregos, supostamente habitadas pelos Deuses. Ao chegar em tais áreas e encontrar um ambiente bastante parecido com o seu próprio e não com a morada dos Deuses, foi difícil evitar que a dúvida se instaurasse na população.

Além disso, o maior entendimento dos fenômenos astronômicos também colaborou para o início da descrença do povo grego em suas divindades mitológicas, já que até então as alterações climáticas eram creditadas também às vontades dos Deuses.

Tais avanços científicos e tecnológicos configuraram desilusões difíceis de ser revertidas e abriram caminho para a consolidação da geração do pensar e início de uma revolução na Grécia Antiga.

 

Arché – A Substância Original

Com a crescente descrença e desconfiança da Vontade dos Deuses para o surgimento e propósito da vida na Terra, os gregos estavam carentes de uma explicação satisfatória para as coisas presentes em sua vida cotidiana e no mundo ao seu redor.

Passaram então a questionar o que daria origem às substâncias que conheciam e as coisas que davam vida à sua própria existência.

Dessa busca nasceram os primeiros pensamentos críticos e argumentos racionais que se tem notícia.

A primeira questão a que os gregos aspirantes a filósofos deram atenção foi exatamente essa: encontrar a origem de todas as coisas, a Substância Original, a que chamavam de arché (ἀρχή).

Para encontrar tal resposta, passaram a observar o mundo ao seu redor, ou seja, a natureza, em grego, physis (Φύσις), por isso, as principais conclusões apontadas por eles foram elementos básicos da natureza, como Ar, Fogo e Água.

É nesse contexto que surgiram alguns dos principais nomes das Ciências Naturais até hoje.

Entre eles, estava Tales de Mileto, que ficou conhecido como o Primeiro Filósofo e ganhou fama ao sugerir que “Todas as coisas são feitas de água”, hipótese que precisaria de breve revisão, mas que pode ser definida como certeira até os dias atuais.

Tales de Mileto, o Primeiro Filósofo da Grécia Antiga
Tales de Mileto, O Primeiro Filósofo

Outro pensador a sugerir sua hipótese para a questão foi o matemático Pitágoras, apesar de sua conclusão não ter sido tão plausível quanto a de Tales. Pitágoras concluíra que os números e as relações matemáticas eram a explicação para todas as substâncias presentes no universo.

Parece devaneio, mas havia uma argumentação lógica por trás de seu pensamento: àquela época, os estudos matemáticos e o estudo da natureza eram comumente confundidos, pois a matemática era um dos poucos campos do conhecimento já relativamente dominados e, portanto, era frequentemente usada pelos estudiosos na tentativa de entender os fenômenos naturais.

Outros importantes filósofos também tinham suas teorias sobre a substância original, como por exemplo:

Tabela relacionando os principais filósofos da Grécia Antiga e suas hipóteses para o Arché

 

Legado da Grécia Antiga

A geração que surgiu em Mileto, Atenas, Éfeso, Eleia e outras importantes cidades-estados gregas mudaram o rumo da história humana e abriram caminho para o desenvolvimento científico, religioso e social que alcançamos durante os anos que se seguiram e que basearam todo o conhecimento que temos até os dias atuais.

Eles configuram uma das histórias mais antigas da face da Terra, mas permanecem sendo um dos ensinamentos mais essenciais para a manutenção do desenvolvimento humano:
em tempos de bolhas de informação em redes sociais, cultivo de discursos de ódio e condenação imediata do diferente, os gregos que quebraram barreiras e reinventaram seus padrões sociais nos mostram que único, ou melhor, modo de vencer a estagnação cultural e evoluir é abrir-se ao novo, vencer o medo do estranho e aceitar o diálogo e o convívio de diferentes culturas e verdades.

 

Fontes

As imagens possuem links para suas respectivas fontes.

Esse post foi inspirado em material de autoria própria que pretendo lançar num futuro não muito distante. Aguardem!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 pensamentos em “Filosofia Grega – A Ascensão na Grécia Antiga”